Você já parou para reparar em quem está narrando a sua vida? Não o que aconteceu com você, mas a voz que escolhe as palavras para contar o que aconteceu. Porque, muitas vezes, buscamos abertura de caminhos, um relacionamento saudável, prosperidade no trabalho, mas esquecemos de olhar para trás e perceber o que foi forjado em cada etapa: a infância, a adolescência, o primeiro emprego, os primeiros amores. Cada uma dessas fases foi trabalhando alguma coisa dentro de nós — e, se ainda não chegamos onde desejamos, talvez ainda estejamos em processo de formação para o momento certo.
Foi esse o convite da palestra desta semana, dentro da nossa vivência de Umbanda Universalista: entender como a forma que contamos a nossa própria história interfere diretamente nos próximos passos que damos. E para tornar essa reflexão mais viva, foram apresentadas três histórias de mulheres — todas atravessando relacionamento e sexualidade, um dos temas mais viscerais da experiência humana, porque não é só racional como o trabalho: ele molda a forma como nos expressamos, nos posicionamos e ocupamos os espaços da vida.
A primeira mulher ainda contava sua história a partir do sonho do príncipe encantado — o excesso de romantismo e as projeções da infância a levavam a se entregar antes mesmo de se conhecer. A segunda carregava a dor do feminino e a repulsa ao masculino: cada decepção reforçava a crença de que "homem nenhum presta", e a dor não resolvida vinha de camadas mais profundas, muitas vezes ancestrais. A terceira já contava sua história a partir da responsabilidade: reconhecia seus próprios momentos, suas prioridades, sem culpar o outro pelo que não deu certo.
E aqui está o segredo que talvez você já tenha percebido: as três mulheres são, na verdade, a mesma mulher — em três momentos diferentes da própria jornada. Ninguém pula direto para a consciência madura. Passamos pela ingenuidade do sonho, pela dor que precisa ser sentida e trabalhada, até chegarmos à responsabilidade de nos reconhecer como autores da própria narrativa. E isso não vale só para os relacionamentos: vale para a carreira, para a maternidade e a paternidade, para a saúde, para cada área da vida em que ainda repetimos ciclos.
Cura, dentro dessa visão, é trazer consciência. É perceber que a dor é um desconforto que nos movimenta — assim como o frio nos tira da cama pela manhã. Muitas vezes, o que vivemos de mais difícil na infância ou nos primeiros relacionamentos foi exatamente o combustível que nos fez construir uma vida diferente. Não se trata de julgar em qual das três histórias você está agora, mas de acolher esse momento com o coração aberto, sabendo que a consciência amadurece com o tempo, com estudo, com terapia e com a espiritualidade caminhando lado a lado.
Fica o convite de hoje: pare um instante e pergunte-se — quem está contando a minha história agora? A criança que sonhou demais, a dor que ainda dói, ou a consciência que já entende que a vida responde ao que carregamos por dentro?
Conteúdo adaptado da palestra ministrada no Instituto Universalista Pai Benedito